O Cérebro e a Arte I

Por Dr. Pedro Deja / Neurocirurgião CRMESP 89.052

"Noite Estrelada" - A facinante realidade sob a ótica da sinestesia.

Doenças do sistema nervoso central já foram assuntos de obras de diversos artistas que transpuzeram para a tela ou para o papel os sintomas ou até mesmo as dificuldades que a doença que lhes acometia os proporcionava. Exemplos como Sarah Raphael (1960 - 2001), J.J. Ignatius Brennan (n. 1949) e o pintor surrealista italiano Georgio de Chirico (1888 - 1978) sofriam de enxaqueca e retratavam imagens em zigue-zague, as quais são características da fase de aura (sintomas visuais em forma de raios, pontos ou zigue-zagues brilhantes que surgem antes da crise de enxaqueca). Em outro exemplo, a artista que fundou o vorticismo, Percy Wyndham Lewis (1884 - 1957), desenvolveu um tumor pituitário (localizado em uma glândula cerebral chamada hipófise), o qual levou o artista a precisar manter o rosto perto da tela para pintar, devido à redução de visão causada pelo tumor.


Peter MacKarell (artista inglês, falecido em 1988) mudou sua arte devido ao diagnóstico de esclerose múltipla, e após adquirir paralisia da mão que usava para pintar, precisou se adaptar e aprender a pintar com a mão contralateral. Além disso, possuia um escotoma central direito (mancha preta no campo visual do olho direito), que também passou a influenciar suas pinturas. John Paterson (artista escocês, falecido em 1998), que foi diagnosticado com doença de neurônio motor (ou Esclerose Lateral Amiotrófica), refletia em suas pinturas seu amor pelo campo. Contudo, com a progressão da doença, notou-se uma compreensível negligência de detalhes nas obras. Lovis Corinth (1958 - 1969) e Anton Räderscheidt (1892 -1970) sofreram um Acidente Vascular Cerebral que lhe proporcionaram como sequela o que chamamos de heminegligência. Esta sequela faz com que o indivíduo "ignore" um lado do corpo ou do ambiente. As obras destes três artistas passaram a apresentar defeitos de um lado específico da tela. Salvador Dalí (1904 - 1989) teve doença de Parkinson e depressão leve. Felizmente, mesmo com os tremores, estes não interferiam tanto em suas pinturas finais. Por último, não poderíamos deixar de citar o famoso pintor europeu Vincent Van Gogh (1953 - 1890), o qual apresentava flutuações de sintomas de depressão e epilepsia, influenciando o modo com que via o mundo e as diferentes fases das cores usadas em seus trabalhos. Além disso, passou por períodos terríveis de angústia e desaprovação secundários às doenças, os quais geraram momentos difíceis ao artista levando a ações extremas como cortar a própria orelha. Vincent Van Gogh explicou nas suas cartas que, para ele, os sons tinham cores e que certas cores, como o amarelo ou o azul, eram como fogos de artifício acariciando seus sentidos. Por isso que o seu "Girassóis" e o "Noite Estrelada" são até hoje telas vibrantes dotadas de vida, de movimento. Indícios evidentes, todos eles, de que o célebre gênio pós-impressionista era sinestésico.


Pode ser que esse dado seja novo para muitas pessoas. No entanto, há muito tempo isso se tornou evidente após a análise de muitas dessas cartas que Van Gogh enviava ao seu irmão Theo ou, até mesmo, pela análise das suas pinturas. A Associação Americana de Sinestesia (ASA), por exemplo, demonstrou a presença de "fotismos" no seu estilo de pintura, ou seja, um tipo de resposta sensorial que quem tem cromestesia apresenta.


A cromestesia é uma experiênia dos sentidos, na qual a pessoa associa sons com cores. Os tons mais agudos, por exemplo, provocam a percepção de cores mais intensas, mais vívidas e brilhantes. Por sua vez, as cores também podem induzir sensações auditivas ou musicais. Era o que acontecia com Franz Litz quando compunha e também era o que sentia Van Gogh, esse gênio no meio do caminho entre a loucura e a maníaco-depressão que deixou esse mundo sem saber o que acontecia com ele e a importância que suas criações tiveram na arte.


Em 1881, em Haia, Vincent Van Gogh escreveu uma carta ao seu irmão. Na carta, ele explicava que cada pintor tinha sua paleta de cores preferidas e que essas tonalidades preferidas eram uma maneira pela qual o artista conseguia atravessar a escuridão do seu coração para encontrar a luz. Ele também comentou que alguns pintores tinham a majestosa qualidade de usar suas mãos com o virtuosismo de um violinista e que determinadas obras chegavam a ser música pura.


Alguns anos depois, em 1885, Van Gogh decidiu estudar piano. No entanto, essa experiência durou pouco e acabou da pior forma para ele. Pouco depois de começar as aulas, o artista declarou que a experiência de tocar era deslumbrante: cada nota evocava uma cor. Seu professor, assustado com essas declarações, decidiu expulsá-lo do local após declarar que Van Gogh "estava louco".


Essa informação não deixa de nos fazer dar um pequeno sorriso porque, dentre todas as patologias que Vincent Van Gogh sofria, essa, a de experimentar sensações cromáticas com estímulos musicais era, sem dúvidas, seu melhor dom, uma nuance que talvez tenha dado à sua arte uma expressividade excepcional e uma riqueza sensitiva pouco observada até o momento. Suas enérgicas pinceladas, por exemplo, datavam cada detalhe de movimento, nos quais o amarelo lhe permitia sentir a alegria, o som da esperança que em determinados momentos tanto fez falta na vida de Van Gogh.


Ao mesmo tempo, uma coisa que seus companheiros de ofício criticavam era que, o uso das cores que ele fazia, nada tinha a ver com a realidade. No entanto, isso era algo secundário para Van Gogh. Não tinha importância alguma na verdade. As cores, para ele, eram a expressão e a busca de determinadas emoções e sensações.


Assim como um dia explicou ao irmão, ele se sentia incapaz de copiar a realidade. Suas mãos, sua mente, seu olhar nunca conseguiram chegar a um acordo com a natureza ou com tudo aquilo que os outros enxergavam com nitidez. Para Van Gogh, o mundo pulsava de outra maneira, ele tinha outras perspectivas, outras formas que materializava do seu jeito. Afinal de contas, a sinestesia tem essa mesma faculdade, a de permitir à pessoa sentir a vida de uma maneira quase privilegiada, mas estranha ao mesmo tempo.


A sinestesia não é uma doença, é conveniente deixar essa informação clara. Ela é uma condição neurológica por meio da qual ocorre uma comunicação incomum entre os sentidos que permite ver os sons , sentir o gosto das cores ou escutar as formas... Temos assim, por exemplo, Elisabeth Sulser, a única mulher do mundo que apresenta uma combinação de todas essas características: ela vê cores ao escutar música ou qualquer som e, além disso, também sente o gosto.


Os neurologistas dizem que quando chegamos ao mundo todos somos sinestésicos, mas à medida que nossas estruturas neuronais amadurecem, todos esses sentidos vão se especializando até se diferenciarem uns dos outros. No entanto, 4% da população conserva capacidades sinestésicas, e a grande maioria dessas pessoas, curiosamente, desenvolve capacidades artísticas. A sinestesia, por exemplo, é muito comum entre os músicos e entre os pintores, com exemplos como Van Gogh, e escritores, como Vladimir Nabokov. Na verdade, esse último explicou que grande parte da sua família também tinha esse dom, mas que sempre teve a sensação de que não aproveitava essa capacidade tanto quanto deveria, principalmente porque não a entendia.


Foi a mesma coisa que o próprio Vincent Van Gogh deve ter sentido. A sensação de que o mundo, aos seus olhos e aos seus ouvidos, era às vezes caótico e desconcertante, a sensação de que essa particularidade era mais uma característica da sua loucura aos olhos do mundo. No entanto, hoje em dia já sabemos que a sinestesia colocava uma lente particular nos seus olhos, a partir da qual via a realidade de uma maneira que nos dias de hoje ainda continua nos fascinando.


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